Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Notícias > 1986, o ano em que a escola se rendeu ao poder das mulheres
Início do conteúdo da página

1986, o ano em que a escola se rendeu ao poder das mulheres

Publicado: Quinta, 26 de Outubro de 2023, 08h35 | Última atualização em Quinta, 26 de Outubro de 2023, 09h07

08.32.36O ano de 1986 foi histórico para a então Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho, atual IFSULDEMINAS - Campus Muzambinho. Foi neste ano que vimos nossa escola, até então frequentada exclusivamente por jovens do sexo masculino, romper com este ciclo e admitir as primeiras garotas em suas cadeiras de estudo. Para nos contar um pouco sobre essa história, nossa equipe recebeu uma dessas jovens pioneiras, a Gláucia Aparecida Rodrigues de Oliveira.

Glaucia é natural de Cássia, Minas Gerais, e é filha de Serafina Rodrigues de Oliveira e do Sr. Luiz Gonzaga de Oliveira. Sendo filha de fazendeiro, interessou-se desde cedo pela lida pelo campo, e esse foi um marco importante que, mais tarde, influenciaria sua escolha pela Escola Agrotécnica de Muzambinho.

Foi através de um amigo que Glaucia ouviu, pela primeira vez, sobre a Escola Agrotécnica. Na época, ele confidenciou a ela que queria vir para Muzambinho, e ela se surpreendeu ao descobrir que, pela primeira vez, o curso de Técnico Agrícola abriria suas portas para a admissão de mulheres.

Foi então que Glaucia, acompanhada do irmão, veio à cidade para conhecer a famosa Escola Agrotécnica. A atração foi imediata, e Glaucia participou dos testes que, mais tarde, a colocariam diante de uma difícil decisão: Seguir com o trabalho ou vir para Muzambinho?

Ela conta que optou pela Escola Agrotécnica, e isto fez dela uma das desbravadoras de um universo, até então, protagonizado apenas por homens. Glaucia talvez não imaginasse à época, mas cravou seu nome na história deste campus como uma das primeiras mulheres a se formarem aqui.

A princípio, foi hospedada por conhecidos, mas não tardou a fazer novos amigos e, com eles, fundar sua primeira república. Glaucia (à época apelidada “tatuzinho”) relembra alguns desafios da época, mas crê que o fato de ter morado afastada dos pais anteriormente a ajudou a lidar com a experiência de viver em Muzambinho. Uma de suas memórias mais vívidas, já que morava na cidade, era justamente as caronas com os professores e, também, as trilhas através dos campos para que viessem ou voltassem da cidade.

Ela se recorda também do trabalho árduo que desempenhavam para manter a escola sempre em dia, mas que este detalhe se somava com as paisagens deslumbrantes, as oficinas ou mesmo a relação com os professores. Todos esses aspectos mantiveram Glaucia firme e feliz com o propósito de formatura ao término dos três anos.

Ela conta que participar da primeira turma com mulheres trouxe grandes desafios, e que essas meninas entendiam a responsabilidade de fazer dar certo; do contrário, talvez não houvesse outras turmas com garotas.

Lidar com os garotos da época foi outro desafio, pois eles tinham seus próprios meios e costumes, e a vinda das garotas foi bastante disruptiva para eles. No entanto, Glaucia se recorda com detalhes de como o Professor Ivan, diretor à época, tomou a dianteira no sentido de defender os direitos das meninas sempre que isso se fez necessário.

“Ele era nosso professor de Educação Física e também o nosso Diretor. Com ele, era tudo muito claro. Quando ele dizia “espero vocês na minha sala”, sabíamos que ali o assunto seria sério. Suspensão ou qualquer coisa assim, no mínimo” - contou.

Ela recorda que, independente do sexo, sempre houve muito trabalho para todos, e que as garotas não se deixavam abater por isso:
“Não tinha esse negócio que a gente era mulher, e os meninos eram homens. Havia trabalho duro para todos!” - Revelou.

Glaucia recorda que havia muito companheirismo entre os estudantes, e que as festas de final de ano eram memoráveis, com comida farta e, como não poderia deixar de ser, muitas lágrimas durantes as despedidas.

Em uma dessas ocasiões, Glaucia foi surpreendida às lágrimas por um dos professores, e confidenciou a ele que estava às vias de ser reprovada em Química, mas que isso não fazia sentido, já que era boa nas aulas práticas. O professor, sério e decidido, respondeu-lhe que aqui não se formavam pessoas apenas para a lida no campo, e que ela deveria buscar compreender isso e se esforçar mais para ser a melhor aluna que pudesse.

Embora dura, a resposta deixou marcas profundas, e Glaucia não tardou a buscar professores particulares para complementar os estudos e, assim, conquistar o tão sonhado diploma.

Os antigos professores também ocupam um lugar especial dentre as memórias de Glaucia, que recordou os longos dias dedicados ao setor de bovinos; ou então os aprendizados no setor de mecanização, onde aprendeu fascinada sobre os tratores e outras máquinas, ou mesmo sobre os ensinamentos ministrados pelo professor Barba ou pelo professor Celsinho, que tantos alunos conduziram por esta escola. Ela só não se recorda com tanto carinho dos períodos dedicados à suinocultura:

“A gente não gostava tanto da suíno na época, porque o cheiro não era lá muito bom, né?” - Contou, humorada.

Mas a rotina dos estudantes era preenchida com muitas atividades para além das aulas. A jornada era intensa, conforme Glaucia se recorda:

“A gente ficava o dia inteiro aí na escola. Ajudávamos o pessoal na cozinha; às vezes fazíamos faxina no almoxarifado; às vezes também ajudamos a servir a comida. Levávamos roupa na lavanderia, e lembro que as roupas tinham nosso número marcado. Acho que tenho duas delas até hoje!”

Da turma de 1986, Glaucia traz estas e muitas outras lembranças, ressaltando a importância das amizades conquistadas, algumas das quais carrega para a vida. Segundo ela, não faltaram oportunidades para a turma se reunir, e todos sempre fizeram questão de participar, fossem professores, alunos ou técnicos, e isso diz muito sobre o clima vivenciado pelas pessoas que, no campus Muzambinho, tiveram a oportunidade de compartilhar suas histórias.
O orgulho em integrar a primeira turma mista também tem um lugar especial nas memórias de Glaucia, uma mulher que pôde demonstrar seu valor em um curso, até então, dominado por rapazes.

“Nós quebramos um tabu, porque tinha muito preconceito na escola e até mesmo na cidade. As moças da cidade até torciam a cara quando nos viam passando toda sujas da lida, de macacão e botina. Coisa de agricolino, mas nós demos a volta por cima de tudo isso” - Contou, com um sorriso nos lábios.

Ao término de nossa entrevista, Glaucia se mostrou ansiosa por participar das festividades em homenagem aos 70 anos do Campus Muzambinho, e aproveitou para deixar sua mensagem a todos aqueles que ajudaram a escrever esta história.

“Sou muito grata por não terem se esquecido da gente. Quero parabenizar a escola pelos 70 anos, porque eu acho que só com muita luta e dedicação dos alunos, funcionários e professores a gente faz uma escola cada vez melhor”.

Texto: ASCOM - Campus Muzambinho
Fotos: cedidas por Gláucia Aparecida Rodrigues

registrado em:
Assunto(s):
Fim do conteúdo da página