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Qual o lugar da Educação Física no Ensino Médio Integrado?

Publicado: Quinta, 26 de Fevereiro de 2026, 10h08 | Última atualização em Quinta, 26 de Fevereiro de 2026, 10h09

Qual o lugar da Educação Física no Ensino Médio Integrado? Memórias do ano letivo de 2025

Brincadeiras e Jogos 2Em um artigo publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte (RBCE)1, os professores Juliano Boscatto e Ivan Bagnara apontam um caminho para uma resposta. Para os autores, a Educação Física é um componente curricular inserido na área de Linguagens que deve dialogar com as demais disciplinas escolares sem, contudo, se tornar subserviente à área técnico-profissional ou à formação geral. Nesses termos, a Educação Física no Ensino Médio Integrado deve oferecer aos estudantes um quadro de referências (teóricas e práticas) que lhes permita fazer uma leitura da realidade e, a partir dela, agir de forma autônoma e crítica no mundo do trabalho, no mundo do não-trabalho (lazer) e no bojo da cidadania.

Essa resposta consubstanciou as aulas na disciplina Integradora Artes/Educação Física, realizadas no último ano de 2025. As aulas foram realizadas no IFSULDEMINAS - campus Muzambinho. Os responsáveis pela disciplina, professor Dr. Rogério de Melo Grillo e professor Dr. Gilson Santos Rodrigues (juntos ao docente de Artes - Fernando D’Alessandro), se apoiaram no trabalho realizado na instituição em anos anteriores e no estudo de Boscatto e Bagnara para o planejamento didático do ano letivo de 2025.

O público-alvo do planejamento foi os estudantes das turmas de primeiro ano dos cursos de Agropecuária, Informática e Técnico em Alimentos. O conteúdo abordou conhecimentos da cultura corporal pertinentes às áreas de Artes e de Educação Física. Deste modo, as Brincadeiras e Jogos, a Dança, a Capoeira e as Atividades Circenses foram conhecimentos e saberes selecionados, organizados didaticamente e ensinados ao longo dos quatro bimestres letivos. As aulas e a mediação docente ressaltaram que os conhecimentos ensinados demandam competências aos estudantes para uma leitura adequada da movimentação corporal, bem como para “leituras críticas” das lógicas culturais que sustentam práticas e discursos sobre esses componentes da cultura de movimento.

No primeiro bimestre foram abordados as Brincadeiras e Jogos. A partir desse conteúdo a disciplina tratou dos conceitos de jogo, brincadeira, esporte e cultura lúdica. Também foram abordadas as ‘naturezas’ do espírito lúdico humano, fundamentalmente a partir da obra Les jeux et les hommes: le masque et le vertige de Roger Caillois. Além disso, as aulas trataram de temas contemporâneos: brincadeiras e jogos da cultura indígena e da cultura afro-brasileira, Jogo de Azar (loterias, bets etc.), jogos educativos (jogo para o aprendizado de conceitos matemáticos, raciocínio lógico etc.), entre outros.

Em uma perspectiva cidadã, as aulas também abordaram leis que garantem o direito ao esporte e ao lazer (art. 217 da Constituição Federal de 1988) e o direito ao brincar (lei nº 14.826 de 20 de março de 2024; princípio 7º da Organização das Nações Unidas; e artigo 31 da Convenção sobre os Direitos da Criança).

A síntese do bimestre com as Brincadeiras e Jogos foi a realização do evento Dia do Brincar e Jogar no IFSULDEMINAS - campus Muzambinho. O evento foi realizado nos dias 04 e 05 de junho de 2025. Aproximadamente 150 estudantes participaram deste evento tanto na organização das atividades quanto na apreciação lúdica do evento2.

Dança 6O conteúdo do segundo bimestre foi a Dança. Com a estratégia de suspender pré-concepções que, porventura, poderiam povoar o imaginário estudantil sobre a prática da Dança, de início as aulas abordaram os ‘conceitos encarnados’ de movimento, ritmo, expressão e coreografia. Em seguida, buscou-se preencher o conceito de Dança de novos sentidos, tratando de defini-la como prática corporal, linguagem e cultura. A partir dessa definição, as aulas tiveram inspiração nos estudos de Rudolf von Laban e propuseram experiências rítmicas, expressivas e de produção coreográfica.

O término do bimestre contou com a produção de videoclipes de dança em espaços públicos na própria instituição. A composição coreográfica foi desenvolvida a partir do intercâmbio de ideias e experiências dos estudantes e dos professores. A proposta dos videoclipes em espaços públicos incitou os estudantes a refletir sobre a dimensão pública do acesso à Arte e à Cultura, bem como sobre o valor das várias formas de produção espetacular que ocorrem em espaços ao público.

No bimestre subsequente, o terceiro, o conteúdo foi a Capoeira. O conceito de Capoeira, arquitetado ao longo das aulas, recorreu à ‘variação imaginativa’ para conceitualizá-la como uma prática corporal de Luta, Dança, Jogo, Esporte e Arte Marcial. Tratando de situar a Capoeira como uma Arte Marcial brasileira, as aulas abordaram seu contexto social de emergência, a luta dos povos africanos escravizados trazidos ao Brasil e a resistência e proteção cultural das comunidades quilombolas. A disciplina também tratou da reconceitualização da Capoeira no início do século XX como uma prática esportiva com estéticas, memórias e identidades singulares (estilos), realçando os mestres Pastinha (Capoeira Angola) e Bimba (Capoeira Regional).

Além da dimensão histórico-cultural, as aulas proporcionaram experiências singulares de ensino dos movimentos corporais da Arte Marcial da Capoeira. Além dos golpes e movimentos corporais, as aulas trataram da musicalidade, das representações iconográficas (particularmente na obra de Hector Carybé) e da experiência do ‘jogar’ capoeira em roda. A síntese da experiência escolar foi a produção de curtas-metragens cujo tema foi capoeira e a cultura afro-brasileira. Os estudantes produziram os filmes e os apresentaram aos colegas em uma sessão de cinema durante o horário das aulas.

Circo 4Por fim, no quarto e último bimestre a disciplina tratou das Atividades Circenses. As aulas abordaram temas pertinentes à cultura e à Arte Circense: a constituição do Circo Moderno na Europa oitocentista, a formação dos grupos circos-familiares e o impacto das distintas formas de produção espetacular circense na história da Música, da Dança, do Esporte, da Educação Física, do Teatro, da TV e das diversas produções artísticas, esportivas e culturais no Brasil e no mundo ocidental. Essa abordagem ilustrou o valor histórico e cultural da Arte Circense aos estudantes. Além dessas informações de valor histórico-cultural, as aulas tiveram vivências corporais com jogos malabarísticos, exercícios acrobáticos e atividades de comicidade e palhaçaria.

A experiência dos estudantes com malabares, acrobacias e comicidade consubstanciou a produção da atividade de finalização do bimestre letivo. A proposta de atividade foi a produção de um espetáculo circense de Natal. Os estudantes produziram e ensaiaram os números circenses para o espetáculo de fim de ano. O espetáculo foi realizado nos dias 17 e 18 de dezembro de 2025. A realização do espetáculo marcou o encerramento do ano letivo em um momento de festividade e alegria, com pipocas, risadas e arte, em suma, uma experiência que remete ao ‘mundo mágico’ do circo.

Retomando a questão inicial, o lugar da Educação Física no Ensino Médio Integrado é ao lado das demais disciplinas curriculares, exercendo sua função educativa e pedagógica, tratando de educar e ensinar aos estudantes a lidar com uma importante esfera da vida humana. A maioria dos estudantes não vão atuar no mundo do trabalho na área da Educação Física, em vista disso, a disciplina evidencia o valor e o direito ao tempo de não-trabalho, ao tempo de lazer, o direito ao brincar e jogar, o direito ao esporte e o direito à Cultura e às Artes do Movimento. O acesso a esses direitos e aos conteúdos dessas práticas corporais exige do jovem estudante do Ensino Médio Integrado a aquisição e o desenvolvimento de competências de ‘leitura’ dos signos da movimentação humana e de leitura crítica da produção discursiva (cultura, mídia etc.) sobre esses assuntos, específicos da disciplina curricular de Educação Física (e de nenhuma outra). A disciplina de Educação Física não pretende imiscuir ou relativizar o valor das demais disciplinas técnicas-profissionais ou de formação geral; ela almeja, isso sim, um espaço de igual valor e importância na formação humana e cidadã dos jovens estudantes do Ensino Médio Integrado.

 

  1. BOSCATTO, Juliano Daniel; BAGNARA, Ivan Carlos. Educação Física no Ensino Médio Integrado: conhecimento e especificidade. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 44, p. e003022, 2022.
  2. IFSULDEMINAS - campus Muzambinho. Notícias (Reportagem). Brincar e jogar é mais sério do se pensa! Da Ciência e do Direito Humano ao brincar. Texto e imagens: Gilson Santos Rodrigues e Rogério de Melo Grillo.

TEXTO: Gilson Santos Rodrigues e Rogério de Melo Grillo
FOTOS: Cedidas pelo professor Gilson

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